Morre Dom Manoel Pestana Filho, um dos últimos bispos tradicionais.


Morre Dom Manoel Pestana Filho, um dos últimos bispos tradicionais. Morre o bispo, mas não morre algumas convicções que ele tanto lutou como professor, padre e epíscopo.  Um homem sábio, professor ilustre de filosofia e teologia, um soldado contra o aborto, um pastor do povo religioso.  Temos a infeliz tendência de canonizar os mortos, não é essa a minha intenção, apenas reconheço sem dificuldade o grande homem virtuoso que foi Dom Manoel.
                Tive a feliz oportunidade de na minha infância ter um contato mais próximo com ele, quando ele ainda era bispo titular da diocese de Anápolis e levava a todos a fama de uma diocese tradicionalista. Conheci Dom Manoel aos meus quatro anos, quando ele celebrou o casamento da minha tia, deu-me muita atenção quando pedi pra pegar o seu solidéu, criança atrevida e curiosa disse: “Quando crescer eu quero ser como você”. Hoje sei que não sou nem parecido, e nunca o serei.
                Mais tarde alimentando o desejo de ser padre pude beber da fonte sábia do bom bispo quando nos falava atenciosamente sobre vocação, contava a história de sua vida e apontava  os perigos da sociedade moderna em se afastar dos valores transcendentais. Nesses momentos me presenteou com a imagem do imaculado coração e pediu que rezasse ao Imaculado Coração pedindo que nos livrasse da maldição do aborto.
                Ainda mais tarde quando eu já me desvinculava da Igreja e iniciei os meus estudos de filosofia na Faculdade Católica de Anápolis tive mais uma vez a felicidade de ter a aula inaugural ministrada por ele. Que ilustre professor, como a pouco lamentávamos na faculdade: Não deixou nenhuma obra filosófica publicada, uma grande pena. Porém com certeza, nós, seus alunos, guardamos no coração os seus ensinamentos. Na aula inaugural orientávamos a indagar não o que faríamos com o estudo de filosofia, mas o que a filosofia faria com a gente.  E esse pensamento foi eloqüente em todo o curso, volta e meia falávamos: “olha o que a filosofia tem feito com a gente”.
                Dom Pestana lutou até o fim por seus ideais. Sábia que se aproximava a hora de sua páscoa.  Escreveu para os bispos em ocasião das eleições 2010: “Suportem-me, que o menor dos irmãos lhes possa dirigir uma palavrinha amiga, mas angustiada de quem se prepara, temeroso, para partir.” E de fato, logo partiu.
                E continuou escrevendo sobre sua preocupação com a atual política: “Horroriza-me a frieza com que olhamos tal estado de coisas. Somos pastores ou cães voltados contra as ovelhas? Somos ou não, alem disso, cúmplices de uma política atéia empenhada em apagar os últimos traços da nossa vida cristã?”
                Dom Manoel foi também um homem caridoso. Acompanhou a Irmã Elizabeth em suas visitas aos enfermos dando a extrema unção e palavras de conforto. Foi ele um suporte para a fundação da comunidade religiosa, cedeu espaço diocesano para a formação do precioso instituto das Irmãs Franciscanas da Divina Misericórdia. Foi ele que apresentou à Santa Sé a aprovação do estatuto das irmãs e obtiveram uma resposta feliz.
                Em Anápolis são 25 anos à frente da Igreja, é difícil encontrar alguém nessa cidade que não tenha um testemunho positivo da atuação humana e religiosa de Dom Manoel Pestana Filho. Preparo-me para ir ao seu velório, vou prestar a minha homenagem a um dos poucos homens de sã intenção que integra a Igreja Católica. Hoje eu não o louvo por ser tradicional, por ser bispos ou ao menos por ser padre, mas o louvo como alguém que realizou bem o seu papel. Fez justiça a sua missão humana de pessoa boa comprometida com Deus e com os seus filhos. Rogo a Deus para que de certa forma tudo o que ele plantou seja frutificado na nossa humanidade, tão sedenta de coisas justas.
"Deus não julga se ganhamos ou não a batalha, mas se lutamos e se lutamos bem”. Dom Manoel Pestana

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