Deus família e liberdade?

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Nessas últimas semanas movimentos de institutos tradicionais e religiosos se organizaram frente a uma ideia de restaurar uma extinta animação pública em favor do tradicionalismo e contra as correntes modernas atuais no direito brasileiro.
As chamadas “Marcha pela Família com Deus”, é uma reedição da Marcha da Família com Deus pela Liberdade, efetivada há 50 anos em declaração contra a hipotética ameaça comunista ostentada na época por alguns setores da sociedade civil no Brasil. Hoje historiadores asseguram que foi uma articulação estrategista do Governo para se fazer de vítima e conseguir seu populismo.
Tais organizações, oriundas de um modismo dos movimentos populares, aconteceu em algumas cidades e na internet com a participação insignificante de algumas dezenas e no muito centenas de pessoas. Mas as bandeiras levantadas de ideologias intolerantes e preconceituosas são de preocupação em um Brasil quem tem avançado na luta por direitos individuais. Um pequeno exemplo foi um dos cartazes que dizia: “Não consigo mais empregadas que dormem no emprego. Maldito Lula.” E outra ainda: “Aeroporto agora parece rodoviária.” Devo concordar que entre os absurdos de intolerância percebíamos algumas críticas válidas aos grandes problemas de saúde, segurança e educação que temos hoje no Brasil. Mas nada justifica a idiotice lutar contra a democracia.
O simples fato de pedir a retomada de uma ditadura com a volta dos militares ao poder me sinaliza uma consciência política esquizofrênica. Clamar por “Ordem e Progresso” em época que a força democrática busca um liberalismo no cumprimento dos seus direitos e deveres é sem dúvida ‘o nadar contra a corrente’ repudiável. A afirmação positivista da nossa Bandeira Nacional é regressão no Brasil de hoje que contempla vagamente o horizonte da desconstrução das formas que fomos obrigados a aceitar até agora.
Na reflexão do Estado já se ajuíza a igualdade de gênero, direitos a união civil entre pessoas independente do gênero sexual, pensamos com isso novas ideias de famílias e não mais a pré-moldada família medieval. No mínimo um paradoxo revoltante escutar essa minoria ridícula falar de liberdade e pedir a volta do militarismo ao poder na real situação em que vivemos. Em síntese a defesa da família institucional tradicional é a negação do corpo social como justificativa no foco na sua própria convicção religiosa.
Os movimentos populares são de expressão das convicções do povo, mesmo que não seja de representação do geral, logo concluímos que existe uma parcela da população em defesa da regressão do direito e do tradicionalismo familiar dos séculos passados. Isso é probo de vergonha e nos amedronta de um anúncio novo ‘nazismo brasileiro’. Ao que vejo esses não entenderam nada... não sabem o que é força popular, conflito, comunismo, revolução, Estado, justiça... não entenderam nada de nada... Não conhecem nossa história. Fico extremamente triste com essa força revolucionária de direita (esquerda, dependendo da posição de análise).
O neomodernismo filosófico nos propõem reflexões sérias somente considerando a morte de deus. Simplesmente por considerar lamentável e torturante a lembrança da experiência histórica-política de focar o poder do Estado pelas convicções ideológicas da religião implantada no ocidente.
Supostos seguidores de Cristo se contradizem com a intolerância pois francamente na pessoa de Jesus admiramos a mais bela abertura para as diferenças e convivência social sadia. A estes eu pediria simplesmente que escutem a palavra do mestre: “A César o que é de César e a Deus o que é de Deus...” Para o Estado o que é direito individual e justiça sem tendências pessoais, e para suas igrejas o que é próprio de suas ideologias. Aceitem quem todos precisam da liberdade que vocês já gozam na previsão legal de Liberdade de Culto e Liberdade de Expressão que o nosso Estado os amparam nessas colunas em Constituição vigente.
A tal Marcha propondo “Deus, família e liberdade” se aniquila em três argumentos simples: O correto é não falar de Deus no Estado, e parece que o próprio Cristo sabia disso quando separou bem suas ideologias do funcionamento político de sua época. A fala da família tradicional não é coerente onde a identidade múltipla de famílias já é realidade no Brasil. E discurso de liberdade com clamor a repressão militar só pode ser uma piada com o nosso passado trágico.
(Ítalo A. L. Silva, filósofo pela Faculdade Católica de Anápolis. Trabalha atualmente na Sectec, lotado na Educação Profissional com a Integração Escola-Empresa do Centro de Profissional de Anápolis – Cepa. É coordenador de Tutoria da Rede e-Tec Brasil/MEC. Também ocupa a cadeira de professor de Filosofia e Sociologia no Ebep das escolas Sesi-Senai.)

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