Nascemos e vivemos da "putaria" do diverso e do divergente... Fazemos e somos o sincretismo de multi-fé.

                Por Ítalo Silva
A manchete diz: <<A Justiça Federal no Rio de Janeiro emitiu uma sentença na qual considera que os cultos afro-brasileiros não constituem religião e que “manifestações religiosas não contêm traços necessários de uma religião”.>> Assim eu me indigno e espantado me coloco a escrever.
                Sim senhor juiz, os cultos afro-brasileiros não constituem SIMPLESMENTE em uma religião e manifestações de terreiro não contêm SOMENTE traços necessários de uma religião. O culto afro-brasileiro é mais que isso. É a manifestação da nossa cultura e da própria identidade múltipla do nosso povo rico em diversidade de ser e de parecer (ético e estético). É o signo da nossa história e logicamente o signo de nós.
                Religião (etimologicamente: religar) é o movimento em lados e de altos... laços humanos e autos divino... horizontal e vertical... Liga e desliga humano e/ao divino... divino e/ao humano... Braços de lado ou para o alto é batida é dança. Festa, transe, signos constantes...
                Religião é própria da subjetividade do povo que por vez torna-se segundo a sua fé em desejo vertical. Na mesma reflexão rasteira também cria sua fé em base ao que é... experiência horizontal.
                Umbanda e Candomblé realmente não obedecem as padronizações da cultura dita erudita por ser por natureza e da natureza da representação genuína da nossa cultura multi-cor, multi -som, multi-sangue, multi-sorriso, multi-verdade... multi-estações.
                Ser uma religião no reflexo da vida e da fé é exatamente isso, considerar o fluxo que é a própria existência e a própria crença. Nosso povo não cabe nessa forma. Somos explosão não venha nos impor e expor nas suas barreiras limitantes e limitadas do DEVE SER, relembre, somos DEVIR que se destrói/constrói sem amarras.
                O senhor juiz considera "legitimo" apenas as religiões eurocêntricas... "eruditas". Nosso povo, antropologicamente, deverá ser reconhecido pela sua multiplicidade de influências e formação. Somos, desde a linguagem dos olhos, andar das palavras até o revestir do corpo, o misto greco-romano - judaico-cristão... e tantos outros, tantos mais... Isso é riqueza. Fato, somos marcados e afetados por algumas normatizações, porém somos agora soltos. Não queira nos padronizar mais uma vez.
Somos orgiáticos...
Nascemos e vivemos da "putaria" do diverso e do divergente...
Fazemos e somos o sincretismo de multi-fé.
                Umbanda e candomblé celebram em cada culto a nossa independência da exploração europeia e festeja a nossa alegria e garra com raiz na nossa herança africana.
                Fiquei indignado com essa tentativa de sacralizar somente as formas da Bíblia Sagrada, Torá, ou o Alcorão... Justiça Federal, não se esqueça, não cabemos nessa forma pois religião brasileira parte da experiência com existência-natureza e não dos padrões dos nossos antigos patões. Infelizmente não é uma tentativa isolada, a intolerância aos grupos afro-brasileiros fazem parte dos nossos dias.


Confiram a notícia:

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por Tiago Chagas
A Justiça Federal no Rio de Janeiro emitiu uma sentença na qual considera que os cultos afro-brasileiros não constituem religião e que “manifestações religiosas não contêm traços necessários de uma religião”.
A definição aconteceu em resposta a uma ação do Ministério Público Federal (MPF) que pedia a retirada de vídeos de cultos evangélicos que foram considerados intolerantes e discriminatórios contra as práticas religiosas de matriz africana do YouTube.
O juiz responsável entendeu que, para uma crença ser considerada religião, é preciso seguir um texto base – como a Bíblia Sagrada, Torá, ou o Alcorão, por exemplo – e ter uma estrutura hierárquica, além de um deus a ser venerado.
A ação do MPF visava a retirada dos vídeos por considerar que o material continha apologia, incitação, disseminação de discursos de ódio, preconceito, intolerância e discriminação contra os praticantes de umbanda, candomblé e outras religiões afro-brasileiras. “Para se ter uma ideia dos conteúdos, em um dos vídeos, um pastor diz aos presentes que eles podem fechar os terreiros de macumba do bairro”, disse o procurador regional dos Direitos do Cidadão, Jaime Mitropoulos.
De acordo com o site Justiça em Foco, o MPF vai recorrer da decisão em primeira instância da Justiça Federal para continuar tentando remover os vídeos da plataforma de streaming do Google.
“A decisão causa perplexidade, pois ao invés de conceder a tutela jurisdicional pretendida, optou-se pela definição do que seria religião, negando os diversos diplomas internacionais que tratam da matéria (Pacto Internacional Sobre os Direitos Civis e Políticos, Pacto de São José da Costa Rica, etc.), a Constituição Federal, bem como a Lei 12.288/10. Além disso, o ato nega a história e os fatos sociais acerca da existência das religiões e das perseguições que elas sofreram ao longo da história, desconsiderando por completo a noção de que as religiões de matizes africanas estão ancoradas nos princípios da oralidade, temporalidade, senioridade, na ancestralidade, não necessitando de um texto básico para defini-las”, argumentou Mitropoulos.

Fonte: Jornal GNN

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