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Mary Lynn Bracht: inocência e silenciamento à luz da psicanálise lacaniana

 I. Introdução A história de Mary Lynn Bracht permanece como um silêncio incômodo na memória coletiva brasileira—um silêncio não acidental, mas deliberadamente construído. Nascida em Iowa, em 1927, e emigrada para o Brasil em 1955, esta jornalista americana tornou-se uma voz crítica durante a ditadura militar brasileira (1964-1985), dedicando-se a documentar e denunciar os abusos perpetrados pelo regime. Seu desaparecimento em 1970, aos 43 anos, permanece oficialmente não resolvido, marcado por inconsistências nas narrativas oficiais e pela sistemática supressão de investigações autênticas. Este ensaio propõe uma leitura psicanalítica lacaniana do caso de Mary Lynn Bracht, compreendendo-o não simplesmente como um crime político, mas como um evento que revela a estrutura profunda do silenciamento enquanto mecanismo de controle ideológico. À luz das teorizações de Jacques Lacan sobre a Ordem Real, o Simbólico e o Imaginário, argumentamos que o desaparecimento de Bracht—e a supressã...

Para que serve a psicanálise?

Uma vida não narrada por si   fica à mercê dos desejos alheios. Para que serve a #psicanálise?   A resposta direta seria: como território de escuta. E assim, ao se narrar, repetir e reeditar,   a pessoa pode reconhecer o que, comumente, permanece inacessível no além do óbvio. Na psicanálise, ao dar dignidade ao funcionamento singular e único,  contraria o gesto de instituições que buscam o ajustamento aos idealizados, a pessoa se vê e se fala, faltosa e criativa, considerando os próprios desejos.  A finalidade não é regular pela culpa e pela vergonha, como os poderes fazem historicamente, ao contrário. Ao passo que aqui, no acolhimento clínico, toda queixa é necessária e importante,   cada reclamação torna‑se roqueza e potência de trans-formação. Não é lugar de aconselhamento e orientação, como tantas opções por aí, e se lugar de receber contornos para "melhor se escutar" narrando 'o que' e o 'como' levou para o divã. Certame...

Seu tamanho e a palavra que você ainda não tem

Qual é seu barrete preferido? De qual material? Você ainda usa barrete? Se não soubesse responder, talvez não conseguiu nem pensar sobre o que perguntei. Simples assim. Wittgenstein já sabia disso. O filósofo tinha uma máxima famosa: "os limites da minha linguagem são os limites do meu mundo". E ele tinha razão. O nosso pensamento, a nossa compreensão da realidade, tudo isso é moldado pelas palavras que temos. Pelas palavras que aprendemos. Nós não conseguimos conceber nada que não consigamos nomear, de alguma forma articular. Mas aqui vem o incômodo: quanto mais rico é o seu vocabulário, quanto mais precisa é a sua linguagem, MAIS o seu "mundo" se expande. Você entende relações novas, experiências novas, nuances que antes não via. Não é mágica. É matemática mesmo. Mais palavras? Mais realidade. Menos palavras? Menos realidade. Então, se você quer falar bem, é preciso pensar expandido. E para pensar expandido você precisa de CONTEÚDO. De PALAVRAS novas. De sentidos ...

(Re)afetadas-se - a vida como Obra de Arte sua, ou sua recusa?

Quem escolhe seus afetos? De quem é a vida que você vive? A gente escolhe qual afeto terá? Dizem ou você acha que está criando sua existência errada? Essas não são só perguntas simples. Abrem para algo primordial. Nietzsche já suspeitava disso. O filósofo alemão enxergava a vida como uma OBRA DE ARTE a ser criada. Não aquele sentimento açucarado que as redes sociais e falácis de autoajuda empacotam, mas afetos REAIS, trans-formadores. Para Nietzsche, assim como outras ideias filosóficas e psicanalíticas, somos seres que CRIAMOS significado através de nossas potências - forças. Mas aqui vem o incômodo: quantos de nós realmente criamos? Será que, na maioria das vezes, apenas repetimos, mecanicamente, o que nos entregaram pronto? Sartre vem para complicar isso. Ele viu algo aterrador na liberdade humana: uma condenação absoluta. Estamos CONDENADOS a sermos livres, a angústia de criarmos a nós mesmos, nossos significados, nossos sentimentos. Não há roteiro pronto. Até há. Mas em falências....

O Real do político: uma leitura Lacaniana das posições discursivas em "Eddington"

Quando analisamos cinematograficamente "Eddington" através da lente psicanalítica lacaniana, me parece que Ari Aster não apenas constrói alegoria sobre polarização política, mas oferece cartografia clínica das modalidades discursivas que estruturam o laço social contemporâneo em sua dimensão mais patológica. Sou levado a acreditar que o filme funciona como laboratório onde podemos observar como as quatro posições discursivas identificadas por Lacan - do mestre, universitário, da histérica e do analista - operam concretamente quando o simbólico que sustenta a civilidade democrática entra em colapso, permitindo que o Real traumático da impossibilidade de convivência emerja sem mediações fantasmáticas adequadas. Talvez seja necessário compreender que a pequena cidade de Eddington constitui-se como microcosmo onde o que Lacan denomina "discurso do mestre" - estrutura que organiza hierarquias sociais através da imposição de significantes-mestres que fixam ide...

O disfarce como sintoma: uma análise psicanalítica da mascarada contemporânea em Fada de Belém

A música "Meu disfarce" é da autoria de Carlos Colla e Chico Roque, sendo um clássico popularizada por artistas como Chitãozinho & Xororó e Fafá de Belém, e regravada por Bruno & Marrone e outros cantores sertanejos. Eu particularmente gosto mais da versão com a Fafá. Quando Fafá de Belém, nome artístico de Raquel Virgínia, canta "Meu disfarce", ela diz sobre os mecanismos contemporâneos da mascarada feminina e seus atravessamentos pelo imperativo de performance identitária. Nascida em Belém do Pará, região onde a exuberância amazônica convive com invisibilidades sociais profundas, a artista desenvolve uma poética que talvez revele como o "disfarce" não constitui engano ou falsificação, mas operação estrutural necessária à constituição subjetiva numa época que exige performances constantes de autenticidade. Sou levado a acreditar que essa música oferece material privilegiado para compreender como o que chamamos "máscara" pode ...

O colapso do Grande Outro e a reinvenção da subjetividade: uma leitura lacaniana da transformação subjetiva em "Pluribus"

A série "Pluribus" de Vince Gilligan pode representar um experimento psicanalítico sobre o funcionamento contemporâneo do Grande Outro como instância universalizadora, revelando através da metáfora da "Junção" - evento que transformou a humanidade numa coletividade simbiótica deixando apenas treze "imunes" - os mecanismos pelos quais nossa época opera a padronização subjetiva não através da repressão ou proibição, mas através da sedução de uma existência sem conflitos. Carol Sturka não representa meramente uma sobrevivente de catástrofe externa, mas encarna estruturalmente a resistência inconsciente ao imperativo contemporâneo da universalização subjetiva, essa tendência do Grande Outro moderno de eliminar progressivamente todas as formas de singularidade que escapam aos seus mecanismos reguladores. Quando ela desperta no "Episódio 1 - O Despertar do Último Humano" confrontando-se com o Real traumático da Junção, Carol manifesta ...

O sofrimento na culpa discursiva em ser mãe e pai: uma breve leitura lacaniana de "All Her Fault"

A série "All Her Fault" é um possível laboratório psicanalítico para examinarmos como as posições discursivas lacanianas se apresentam na construção social da maternidade e paternidade contemporâneas, apontando as fissuras estruturais que atravessam os papéis de gênero quando confrontados com o Real traumático da parentalidade. Para compreendermos adequadamente esta dinâmica, devemos considerar que cada discurso lacaniano organiza-se através de uma fórmula específica onde as posições subjetivas... agente, outro, verdade e produção... determinam modalidades distintas de laço social e produção de gozo. Os personagens centrais da narrativa encarnam, de forma quase didática, os quatro discursos fundamentais que Lacan teoriza como modalidades de laço social, demonstrando como cada posição subjetiva produz efeitos distintos na experiência parental e na perpetuação ou transformação dos estereótipos de gênero. Mais crucialmente, a série revela uma verdade estrutural devas...

A dúvida neurótica - poetizando

As hipóteses que criamos tentando elaborar o movimento do outro... ah, esses labirintos de uma estranheza que conhecemos tão bem. Elas desviam dos fatos, sim, mas fazem algo ainda mais perturbador: expõem os fatores secretos de nossas próprias elaborações, como quem acende uma vela e descobre que iluminava não o quarto escuro, mas o próprio rosto refletido no espelho. Ele fez isso? Foi isso mesmo que ele quis dizer? O que digo quando escolho continuar chorando sozinho? E se eu perguntar, se me atrever a perguntar e ele me disser que foi ou que não foi... essa resposta simples será suficiente para quebrar os nós da minha impressão, ou apenas criará nós mais apertados? Porque a expressão das minhas interpretações, percebo agora, diz muito mais sobre meu ego procurando respostas de alívio, procurando alicerces onde talvez só devesse haver movimento. A dúvida... não será ela mais certeza do que o risco terrível de ser olhado pelo abismo que eu mesma olho? Arriscar chegar na desilusão pode ...

Despedaçamentos - Poetizando

Estou em uma fase de despedaçamentos, e isso talvez seja o mais honesto que posso dizer sobre este momento que vivo.  É como se cada pedaço de mim que se solta revelasse algo que sempre esteve ali, escondido sob as camadas do que eu acreditava ser. Me desconheço e me reconheço ao mesmo tempo, numa festa estranha onde cada passo para trás me leva adiante, onde cada fragmento que se desprende me mostra uma face nova do meu próprio rosto. Há algo de assustador e, ao mesmo tempo, de profundamente libertador neste processo... como se fosse preciso me desfazer para, enfim, me encontrar.  As questões que emergem não são nada novas; talvez elas apenas esperavam, pacientes, o momento em que eu estivesse pronto para olhá-las de frente. A angústia que sinto não é inimiga, descobri. Ela é a companheira necessária desta travessia, a prova de que algo está acontecendo dentro de mim.  Quando digo que acho que estou bem, não é que a dor tenha cessado ou que as incertezas tenham encontrad...

Permita-se a solidão - poetizando

Permita-se a solidão, a boa e velha solidão,   que não é a ausência do outro, mas o convite do eu,   onde no abrigo do silêncio, você pode ouvir com carinho   os sussurros dos seus próprios barulhos...   as vozes internas que não se calam,   que precisam ser ouvidas, respeitadas, ainda que não compreendidas. Fugir com prazeres imediatos traz sim um alívio,   como um doce fugaz que derrete na boca,   mas lembre-se: a contabilidade sempre chega.   E, na hora em que a noite se deita,   o travesseiro, fiel confessor, traz à tona   as dívidas que você acumulou consigo mesmo. A contabilidade do travesseiro é imperdoável. E é ali, no escuro acolhedor,   que as sombras se tornam mais nítidas,   e A QUESTÃO lateja mais forte que qualquer impulso efêmero. Então, escute a solidão não como um fardo,   mas como uma incrível amiga que te ensina, que afirma,   que o ma...

Não sei definir amizade - poetizando

Não sei definir amizade, mas acho que amizade tem muito sobre uma tentativas de alcançar a individualidade do outro. É uma busca silenciosa, onde nos vemos no que o outro alcança, numa dança tênue em que cada movimento revela algo pertenente à nossa própria essência. Somos, afinal, seres que, mesmo tentando construir coletivos, carregamos a substancial solidão de cada um. Somos um, mesmo quando em composições de dois, três ou mais. Aprendi isso na psicanálise lacaniana, e até ri dessa verdade tão crua e direta. Nesse impulso de tentar criar laços, é como se nos esculpíssemos através do olhar do outro... aquele olhar que nos escuta, que acolhe as partes mais fracas e, às vezes, com um toque de firmeza, nos exorta a ver além das nossas próprias ilusões, egoísmos disfarçados, fetiches do eu.  Me sinto muito só, mergulhando numa resignação sobre o que são as amizades. E preciso desse privilégio que é a solidão. Certamente, há muita gente por perto e a memória de algumas amizades incrív...

Não sei definir amizade - poetizando

Não sei definir amizade, mas acho que amizade tem muito sobre uma tentativas de alcançar a individualidade do outro. É uma busca silenciosa, onde nos vemos no que o outro alcança, numa dança tênue em que cada movimento revela algo pertenente à nossa própria essência. Somos, afinal, seres que, mesmo tentando construir coletivos, carregamos a substancial solidão de cada um. Somos um, mesmo quando em composições de dois, três ou mais. Aprendi isso na psicanálise lacaniana, e até ri dessa verdade tão crua e direta. Nesse impulso de tentar criar laços, é como se nos esculpíssemos através do olhar do outro... aquele olhar que nos escuta, que acolhe as partes mais fracas e, às vezes, com um toque de firmeza, nos exorta a ver além das nossas próprias ilusões, egoísmos disfarçados, fetiches do eu.  Me sinto muito só, mergulhando numa resignação sobre o que são as amizades. E preciso desse privilégio que é a solidão. Certamente, há muita gente por perto e a memória de algumas amizades incrív...

Ardor que me define me definhando - Poetizando

A velha lição helenista da filosofia cínica sussurra, como um grito distante, que a felicidade se encontra na renúncia, na arte de não possuir. É uma promessa velada que se apresenta como via para desvendar a angústia da ilusão da posse. No entanto, quem seria eu sem a intensidade das questões que valorizo? Aqueles dilemas familiares e anseios que, como raízes, se entranham em minha essência, tecendo a trama do meu ser. Há uma beleza inquietante em percepcionar que o preço da ataraxia, esse ideal estado de paz, parece ser o desprezo absoluto. Mas será o desprezo mesmo possível? Pode um coração pulsante abrigar a serenidade total, quando a vida é feita de nuances, de amores e desapontamentos que nos moldam com a força de um fogo que consome? Quem sou eu, senão um ser forjado na labareda da experiência, um pedaço vivo do ardor que me consome? O desejo e a frustração andam de mãos dadas, e é nessa ambivalência que a vida realmente pulsa. Cada paixão assume a forma de uma chama que não ape...

Talvez não era medo - Poetizando

Acho que tenho reorganizado os afetos, como se fizesse arrumações em um armário íntimo, onde guardo as lembranças e os desejos. Há um movimento sutil em mim, uma dança silenciosa entre a necessidade de me proteger e o arrobo de me entregar. Não é sobre o medo de te perder, mas sobre o inverno que, de repente, se instala em mim, gelado e palpável, na incerteza de um amor em que se respira a fragilidade e a força do que vivemos. O medo, ah, esse velho conhecido, parece simplesmente vestir-se de outras cores, outras formas. Talvez seja o receio de perder a memória, essa camada leve que acobre minhas fantasias onipotentes, onde cada carinho seu se transforma em uma constelação brilhante e radiante. Às vezes, sinto que não é insegurança, mas um zelo profundo, um guardião carinhoso da preciosidade do afeto que devo a ti, um afeto único, quase sagrado, que brotou como um acaso entre as dobras do cotidiano. A sorte indescritível de ter esbarrado minha história na sua, como se o universo estive...