Ensaio Analítico: A Voz que Canta o Desejo
Uma travessia pela obra de Vanessa da Mata
Por Ítalo Silva
Introdução: A eterna retirante que virou canto
Há poucas carreiras na música brasileira que sintetizem tão bem a dialética entre raiz e asfalto, entre memória e futuro, quanto a de Vanessa da Mata. Nascida em Alto Garças, Mato Grosso, em 1976, e migrada para a cidade grande em busca de palco, ela carrega no timbre um Brasil interiorano que nunca abandonou a cidade. Psiquicamente, sua obra pode ser lida como a trajetória de um sujeito que precisou esquecer para lembrar, que precisou perder o chão para reencontrá-lo em outra clave. É essa a tensão que estrutura cada um de seus álbuns.
A Linha do Tempo (1999–2025)
1. O Precedente: "A Força Que Nunca Seca" (1999) — a senhora com a lata na cabeça
Antes de qualquer disco, há uma canção fundadora. Em parceria com Chico César, Vanessa compôs aos 21 anos a obra que o maestro de sua vida interpretativa revelaria ao mundo através de Maria Bethânia em 1999 .
"Já se pode ver ao longe a senhora com a lata na cabeça..."
A imagem da mulher que carrega água (e vida) sobre a própria cabeça é um arquétipo freudiano do corpo como vaso e veículo. A força que "nunca seca" evoca o eros enquanto pulsão vital que insiste, que não se esgota — mesmo sob o peso da rotina. Filologicamente, aqui já nasce a assinatura de Vanessa: o cotidiano elevado a mito. Sob o olhar psicanalítico, trata-se do trabalho de sublimação: transformar o peso (o sofrimento vivido) em leveza (o canto) .
2. Vanessa da Mata (2002) — o nascer do sujeito
Estreia homônima, produzida por Jacques Morelenbaum — o que já denunciava uma ambição de sofisticação harmônica incomum para o pop . A gravação de "A Força Que Nunca Seca" neste disco foi conduzida "com suavidade", na avaliação crítica .
Característica estética: intimismo de câmara, violoncelos, voz frontal. É um disco de apresentação do nome, anterior a qualquer persona comercial.
Temática central: a descoberta. Os sucessos "Não Me Deixe Só" e "Onde Ir" — o próprio título da segunda já é uma interrogação espacial-existencial (o onde da fuga). Em tom jaspersiano, é a canção do sujeito que, tendo perdido os referenciais, pergunta pelo lugar. Passa-se da latência da "senhora com a lata" para o despertar do eu que se interroga sobre o destino.
3. Essa Boneca Tem Manual (2004) — o corpo liberado e o mercado
É o disco da consolidação pública, produzido por Liminha, e o que apresenta Vanessa ao grande público através do reggae-etéreo "Ai, Ai, Ai" . O título já é um manifesto irônico: se a boneca tem manual, houve quem a quisesse instruir — mas ela se recusa a ser lida como objeto unívoco.
Sucessos: "Ai, Ai, Ai", "Ainda Bem", "Não Chore Homem".
Temática central: o amor ambivalente, a ironia afetiva. A abertura com "Ainda Bem", balada romântica que "irradia" esperança , contrasta com a rebeldia do hit. Aqui emergem os cabelos "de nuvem ou bombril" — metáfora da identidade negra em disputa com os padrões . Psicanálise do deslocamento: a boneca que vem "com manual" é a mulher cujo corpo é, a um só tempo, território próprio e objeto de prescrição alheia. Vanessa canta a soberania do desejo sobre a norma.
4. Sim (2007) — o zênite do afeto e a internacionalização
O ponto mais alto em relevância cultural e comercial. É aqui que mora "Boa Sorte/Good Luck", em dueto bilíngue com Ben Harper — cruzamento entre MPB e soul norte-americana que virou hino de despedida amorosa madura .
Na verdade, o disco abre com "Vermelho", descrito como o "primeiro reggae" de Vanessa , cuja letra — "Gostar de ver você sorrir, gastar das horas pra te ver dormir, enquanto o mundo roda em vão" — é puro carpe diem afetivo. E ainda "Amado", que se tornou tema da novela A Favorita .
Característica estética: pop de arena com classe; o ponto onde a canção de câmara ganha escala.
Temática central: o amor como gesto de benevolência mais do que de possessão. "Boa Sorte" é revolucionária porque recusa o ressentimento:
"É só isso, não tem mais jeito, acabou, boa sorte..."
Num país cujo cancioneiro está empapado de ciúmes e vingança, dizer "boa sorte" ao que se perde é um ato de elaboração psicanalítica: desinvestir libidinalmente o objeto sem destruí-lo, sem o tornar fetiche de ódio. É a maturidade do luto bem-feito .
5. Bicicletas, Bolos e Outras Alegrias (2010)
O título já é um programa estético-filosófico: uma fenomenologia da pequenez. Em tempos de guinadas grandiosas, Vanessa canta o que Érico Veríssimo chamaria de ordinário sublime.
Característica estética: acolhimento, calor, registro mais solar e pop brasileiro vintage.
Temática central: a alegria como categoria política e afetiva. Retomando o pensamento de Spinoza (a alegria que aumenta nossa potência de agir), o disco é um tratado sobre resistir pela doçura.
6. Segue o Som (2014) — o presente como imperativo
Disco gravado com forte espírito de crônica da vida urbana, começando pela faixa-manifesto "Toda Humanidade Nasceu de Uma Mulher", um verso de teor feminista-matriarcal que ecoa a "Força que Nunca Seca" .
Sucessos: "Segue o Som", "Não Sei Dizer Adeus", "Ninguém É Igual a Ninguém (Desilusão)".
Temática central: o presente e a não-posse.
"Pensa um pouco no que faz..."
A repetição de "segue o som" funciona como um mantra para "não se deixar dominar por preocupações" — uma ética estoica de atenção ao agora. Em clave junguiana, é o chamado ao eixo presente: só no aqui-agora o self se realiza. E "Não Sei Dizer Adeus" expõe a aporética das despedidas — a impossibilidade de nomear a perda.
7. Quando Deixamos Nossos Beijos na Esquina (2019) — a memória do lugar
O álbum mais explicitamente mnemônico da carreira, aberto pela faixa-título que rememora o gesto de abandonar um beijo ao acaso . Sobre a produção, houve elogios à capacidade de Vanessa de fazer da memória afetiva matéria viva .
Faixas notáveis: "Só Você e Eu", "Tenha Dó de Mim" (com Baco Exu do Blues — belo encontro geracional ).
Temática central: a nostalgia como presença, não como fuga. Em lógica proustiana e psicanalítica, a esquina é o lugar-topográfico do recalque: ali se "deixou" não apenas um beijo, mas um fragmento do self. Voltar à esquina é o ato de rememoração terapêutica — recuperar o que a memória havia arquivado no esquecimento para finalmente deixá-lo partir.
8. Vem Doce (2023) — doçura e amargura
Aqui Vanessa afirma a duleza — mas uma doçura conquistada, não ingênua. São conhecidas faixas como "Foice", que tensionam a suavidade vocal com a dureza do conteúdo .
Temática central: a dialética do doce e do cortante. O título é uma ópera das ambivalências: o que "vem doce" pode vir também como risco. Registro mais maduro e autocontido, de quem já não precisa provar o próprio nome.
9. Todas Elas (2025) — a coroação do feminino plural
Lançado em plena maturidade, o disco foi saudado pela crítica como um ato de "repelir intolerâncias e moldes machistas" . É a resposta explícita à pergunta feita em 2004: se a boneca tinha manual, agora o manual foi rasgado — e todas as mulheres que cabem em Vanessa são celebradas.
Temática central: a multiplicidade do feminino e a crônica social brasileira . "Contadora de histórias", Vanessa assume o papel de cronista do país, costurando o pessoal e o coletivo. É o coroamento de uma obra que sempre soube que a biografia de uma mulher do interior é, também, a biografia do Brasil.
Síntese: Um Projeto Estético-Psíquico Coerente
Olhando em retrospecto, a carreira de Vanessa da Mata desenha um arco orgânico:
- Da interrogação do lugar (Onde Ir)...
- ...à recusa da instrução alheia (Essa Boneca Tem Manual)...
- ...à maturidade do luto amoroso (Boa Sorte)...
- ...à celebração do instante (Segue o Som)...
- ...ao resgate do passado (Nossos Beijos na Esquina)...
- ...culminando na afirmação plural do feminino (Todas Elas).
É uma obra cuja constância é exatamente a inconstância tematizada: o desejo, a perda, a memória e a presença. Se, como queria Freud, o ser humano vive sob o primado do princípio do prazer, mas é obrigado a se haver com o princípio de realidade, Vanessa canta justamente essa negociação — a possibilidade de ser forte sem secar, de ser doce sem se dissolver, de partir sem precisar odiar.
Sua voz, entre a "nuvem e o bombril", entre o sertão e o concreto, permanece o lugar onde a senhora da lata na cabeça finalmente descobriu que a força que nunca seca é aquela que se dá sem esgotar — a força do afeto sublimado em canto. Contrapondo amor e luto, posse e doação, esquina e caminho, Vanessa da Mata fez de si mesma a sua própria "Geografía del deseo": uma cartógrafa musical do coração brasileiro.
Ensaio elaborado com base em informações da discografia oficial, registros críticos e análises da obra .
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