Uma história que nunca contei

Caminha por longas horas, já cansado parei na praça central para descansar. Enquanto poupava as pernas exercitava a mente. Observava a multidão que passava. Muitos estilos, muita gente poucas mentes. Passavam todos no mesmo lugar, porém não se olhavam, casualmente esbarravam um no outro.
Quando percebi estava sentado ao meu lado um gentil.  Era um desconhecido que eu já havia escutado algumas coisas sobre ele. Contaram-me que era um sábio chamado Prudente.
- Bom dia. – puxei assunto.
Ele me olhou com profundidade e cedeu um leve sorriso. Para testar sua sabedoria fiz algumas perguntas. Como bom provocador do pensar ele sempre me respondia com outra pergunta. Surpreso com a prudência do Prudente resolvi tirar uma dúvida.
- Quem são os mais sábios: Os Gregos ou os modernos. – Ele não me respondeu.
- Qual teoria eu devo apegar-me: existencialista, espiritualista, hedonista ou humanista?
- Quantas refeições você faz por dia? – respondeu ele logo em seguida.
- Algumas. – respondi.
- O seu corpo contenta-se com uma única vitamina?
- Não.
- Encontra todas as vitaminas necessárias em uma exclusiva refeição?
- Certamente por mais rico que seja o alimento ele não contem todas as proteínas necessárias. – respondi começando a compreender o raciocínio.
- Então como esperar que sua existência contente-se com uma única forma de sabedoria? – Arrematou ele a minha dúvida.
- Mas posso ter um cardápio preferido, ao qual meu paladar se agrade mais. – tentei não mostrar que concordava com ele.
- Of course. Contanto sua preferência subjetiva garantirá que o cardápio seja pleno no que precisa? Já tentou alimentar a alma com a cautela que se deve alimentar o corpo? Equilíbrio, prudência... – eu não respondi, a resposta era lógica, continuei a digerir o que ele agendava em mim.
- Fé ou Razão? Emoções ou a razão? Querer ou dever? Alma ou corpo? – quebrei o meu próprio pensar e tentei provoca-lo com questões mais metafísicas.
- Percebe aqueles pombos comendo migalhas? – Apontou o sábio.
- Sim.
Levantou as sobrancelhas enquanto me olhava. Depois balançou os braços e assustou os pássaros que voaram.
- Diga-me se para voarem precisaram mais das asas esquerdas ou das direitas? – novamente arrematou a minha dúvida sobre o dualismo com uma simples analogia.       

Comentários

  1. Achei o final simplesmente FANTÁSTICO.

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  2. Pois é, fica complicado administrar dualismos se não compreendendo que pode haver a possibilidade de ambos existirem em complemento um do outro, como a razão e a emoção.

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