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Ideologia, Consciência de Classe e Educação Socioemocional - ensaio acadêmico

A compreensão marxista da ideologia oferece um instrumental analítico fundamental para desvelar as múltiplas dimensões dos processos educacionais contemporâneos, especialmente no campo emergente da educação socioemocional. Como Marx e Engels (2024) argumentam n'A Ideologia Alemã, "as ideias dominantes de uma época sempre foram as ideias da classe dominante" (p. 47), o que nos permite problematizar criticamente os discursos e práticas pedagógicas contemporâneas.

A educação socioemocional, compreendida sob a perspectiva materialista histórico-dialética, não pode ser reduzida a um conjunto de técnicas individualizantes de adaptação, mas deve ser reconhecida como um campo de disputas e produção de subjetividades. Terry Eagleton (2024) destaca que "a ideologia opera precisamente nesse terreno nebuloso entre poder e subjetividade" (p. 89), revelando as múltiplas mediações entre estrutura social e experiência individual.

As relações entre trabalho e formação socioemocional evidenciam as contradições fundamentais do modo de produção capitalista. Marx (2024) já denunciava como "o trabalho alienado produz não apenas mercadorias, mas também o próprio trabalhador como mercadoria" (O Capital, p. 112). Nesse sentido, as propostas contemporâneas de educação socioemocional frequentemente funcionam como mecanismos de disciplinamento e adaptação às demandas do mercado.

A consciência de classe emerge como categoria fundamental para compreender os processos de formação socioemocional. Engels (2024) argumenta que "a transformação da consciência individual está necessariamente vinculada à transformação das condições materiais de existência" (p. 76), o que significa ir além de abordagens psicologizantes e individualistas.

Os movimentos sociais configuram-se como espaços privilegiados de produção de uma consciência socioemocional contra-hegemônica. Conforme Marx e Engels (2024) no Manifesto Comunista, "o proletariado desenvolve uma consciência de sua própria condição histórica" (p. 54), o que implica reconhecer a dimensão coletiva e política da formação socioemocional.

A ideologia opera como mecanismo de ocultamento das contradições sociais, produzindo narrativas que naturalizam as relações de exploração. Louis Althusser (2024) contribui ao demonstrar como os aparelhos ideológicos do Estado - dentre os quais a escola - produzem permanentemente mecanismos de reprodução das relações sociais dominantes (p. 98).

As estratégias contemporâneas de educação socioemocional frequentemente mascaram as determinações materiais da produção de subjetividade. Silvia Federici (2024) argumenta que "as tecnologias de produção do eu são sempre tecnologias de produção do trabalho" (p. 67), revelando os nexos entre processos subjetivos e estruturas econômicas.

A dialética marxista nos permite compreender que a formação socioemocional não é um processo individual, mas uma construção histórica atravessada por relações de poder. Raymond Williams (2024) contribui ao argumentar que "a estrutura de sentimento de uma época revela as tensões entre experiências vividas e sistemas de poder" (p. 112).

Os direitos humanos e as políticas educacionais precisam ser compreendidos como campos de disputas, e não como concessões abstratas. Boaventura de Sousa Santos (2024) destaca que "as epistemologias do Sul nos permitem descolonizar os saberes e as práticas de formação" (p. 89), o que implica uma perspectiva crítica sobre os discursos hegemônicos.

A educação socioemocional, nessa perspectiva, precisa ser reconhecida como espaço de resistência e produção de consciência crítica. Paulo Freire (2024) contribui ao argumentar que "não há educação neutra - ela é sempre um ato político" (p. 76), o que significa compreender a formação socioemocional como território de luta hegemônica.

As contradições fundamentais se revelam: a educação socioemocional pode tanto ser instrumento de adaptação quanto possibilidade de transformação social. Como argumentam Marx e Engels (2024), "os homens fazem sua própria história, mas não a fazem como querem" (p. 54), o que significa reconhecer os limites e as possibilidades de agência individual.

Referências

  1. ALTHUSSER, L. Aparelhos Ideológicos do Estado. Rio de Janeiro: Graal, 2024.
  2. EAGLETON, T. Ideologia. São Paulo: Boitempo, 2024.
  3. ENGELS, F. A Dialética da Natureza. São Paulo: Boitempo, 2024.
  4. FEDERICI, S. Calibã e a Bruxa. São Paulo: Elefante, 2024.
  5. FREIRE, P. Pedagogia do Oprimido. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 2024.
  6. MARX, K.; ENGELS, F. A Ideologia Alemã. São Paulo: Boitempo, 2024.
  7. MARX, K.; ENGELS, F. Manifesto Comunista. São Paulo: Boitempo, 2024.
  8. SANTOS, B. S. Epistemologias do Sul. São Paulo: Cortez, 2024.
  9. WILLIAMS, R. Marxismo e Literatura. Rio de Janeiro: Zahar, 2024.

Palavras-chave: Ideologia. Educação Socioemocional. Consciência de Classe. Movimentos Sociais. Marx e Engels.

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