O ciúmes, na experiência analítica, não é simples defeito moral nem tempestade de ocasião: é bússola descalibrada que, mesmo errando o norte, revela a paisagem afetiva em que a pessoa caminha. Quando explode, o ciúmes quer garantias; quando silencia, alimenta fantasmas. Entre o pedido de certeza e o rumor do desconhecido, a clínica se organiza como oficina de precisão: afiar a escuta, localizar palavras que inflamam, aplicar cortes de linguagem que devolvam medida ao que se apresentou como absoluto. Nietzsche lembraria que toda força pede forma; Lacan ensinaria que o desejo se diz como pode. Entre ambos, o trabalho clínico se compromete com um gesto simples e exigente: distinguir contradições de inversões nos discursos do ciúmes e, com essa distinção, abrir passagens onde antes havia labirinto. Chame-se, aqui, ciúmes de esse afeto que vigia fronteiras do vínculo, teme perda e reivindica exclusividade de lugar; não apenas no amor romântico, também no trabalho, na amizade, na atenção par...