Pular para o conteúdo principal

Postagens

Mostrando postagens de agosto, 2025

Ciúmes e corte: a clínica como arte de distinguir contradições e inversões

O ciúmes, na experiência analítica, não é simples defeito moral nem tempestade de ocasião: é bússola descalibrada que, mesmo errando o norte, revela a paisagem afetiva em que a pessoa caminha. Quando explode, o ciúmes quer garantias; quando silencia, alimenta fantasmas. Entre o pedido de certeza e o rumor do desconhecido, a clínica se organiza como oficina de precisão: afiar a escuta, localizar palavras que inflamam, aplicar cortes de linguagem que devolvam medida ao que se apresentou como absoluto. Nietzsche lembraria que toda força pede forma; Lacan ensinaria que o desejo se diz como pode. Entre ambos, o trabalho clínico se compromete com um gesto simples e exigente: distinguir contradições de inversões nos discursos do ciúmes e, com essa distinção, abrir passagens onde antes havia labirinto. Chame-se, aqui, ciúmes de esse afeto que vigia fronteiras do vínculo, teme perda e reivindica exclusividade de lugar; não apenas no amor romântico, também no trabalho, na amizade, na atenção par...

Dor e corte: a clínica como arte de distinguir contradições e inversões

A dor, na psicanálise, não é apenas sintoma ou ruído; é forma e conteúdo, música e ruído ao mesmo tempo. Quando ascende à palavra, a dor pede tradução e risco: traduzir é sempre operar com perda, e arriscar é aceitar que algo do sentido seja cortado para que o sujeito se desprenda daquilo que o captura. Nietzsche ensinou que a vida, quando ganha coragem, faz do sofrimento uma força de transvaloração; Lacan, por sua vez, lembrou que o desejo se escreve na carne da linguagem. Entre ambos, a clínica encontra a sua régua e o seu bisturi: escutar a dor como mensagem, operar cortes de palavra que desfaçam amarras, e distinguir com precisão cirúrgica duas engrenagens do dizer — contradição e inversão —, já que confundí-las esteriliza o tratamento, enquanto separá-las abre caminho para efeitos de liberdade.  Chamo dor, aqui, de tudo o que lateja entre o corpo e a história: aquela fisgada que nasce no luto, a queimadura do racismo cotidiano de que fala Lélia Gonzalez, a ferida do sexismo de...

A tempestade final: Renato Russo e a poética do adeus

Na dialética trágica da existência, poucos artistas encarnaram com tanta intensidade o paradoxo dionisíaco-apolíneo quanto Renato Russo em seus derradeiros momentos de vida. O último álbum da Legião Urbana, "A Tempestade ou O Livro dos Dias", lançado em 20 de setembro de 1996, constitui-se como um monumento à finitude consciente, um testamento simbólico que antecipou em apenas 21 dias o desaparecimento físico do poeta. Esta proximidade cronológica entre a criação final e o silêncio definitivo não representa mera coincidência temporal, mas sim a materialização sonora do Real lacaniano que irrompe na linguagem quando o sujeito se encontra face a face com o inominável da morte.  Neste encontro com o Real da finitude, Renato nos oferece não o desespero niilista, mas uma elaboração sublimada do luto antecipado de si mesmo. Como nos ensina Marilena Chaui, "a liberdade não consiste em ter a ilusão de escolher o conteúdo do que nos determina, mas em saber-se determinado e, pelo ...

Intervenções clínicas 'lacranianas' inspiradas pelo Estoicismo

Este ensaio explore como os princípios da filosofia estoica podem ser valiosos para a prática da psicanálise, especialmente na tradição lacaniana. O estoicismo enfatiza a razão, o autocontrole e a aceitação da realidade como fundamentais para uma vida significativa. É essencial notar que a psicanálise não busca apenas promover o autoconhecimento. Em vez disso, ao revelar conteúdos inconscientes, seu objetivo é preparar o indivíduo para lidar melhor com as circunstâncias da vida, promovendo uma mudança na maneira como se relaciona com os outros. Os estoicos nos ensinam que a verdadeira felicidade vem de tomarmos as rédeas sobre nossas emoções e desejos. Isso se conecta à psicanálise, que, em vez de oferecer apenas um conhecimento superficial sobre si mesmo, provoca uma transformação na forma como a pessoa se posiciona diante de sua realidade. O analista pode se valer da perspectiva estoica para incentivar o paciente a refletir: "O que você realmente pode controlar na sua vida?...

Patologização da vida na medicina Psiquiátrica

Esse breve e singelo ensaio oferece uma  leitura, que felizmente tem se tornado cada vez mais acessível, sobre a atuação da medicina psiquiátrica e as implicações da patologização na vida das pessoas, invitando à reflexão quanto os caminhos que a psicanálise aposta abrir para um entendimento mais humanizado do sofrimento. A psicanálise, enquanto prática e discurso, carrega uma forte concentração de crítica ao fenômeno da patologização da vida em um contexto contemporâneo, no qual a medicina psiquiátrica moldou-se em torno de uma lógica industrial. A produção massificada de diagnósticos, frequentemente acompanhada de prescrições imediatas, aponta uma tendência perigosamente redutiva: a transformação da complexidade humana em meros rótulos e categorias diagnósticas.  Como observa Oliveira (2017), a "patologização da experiência humana tem se intensificado, reduzindo a subjetividade a meros termos médicos". Essa tendência não apenas obscurece a riqueza da experiência humana, mas...