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O Real do político: uma leitura Lacaniana das posições discursivas em "Eddington"

Quando analisamos cinematograficamente "Eddington" através da lente psicanalítica lacaniana, me parece que Ari Aster não apenas constrói alegoria sobre polarização política, mas oferece cartografia clínica das modalidades discursivas que estruturam o laço social contemporâneo em sua dimensão mais patológica. Sou levado a acreditar que o filme funciona como laboratório onde podemos observar como as quatro posições discursivas identificadas por Lacan - do mestre, universitário, da histérica e do analista - operam concretamente quando o simbólico que sustenta a civilidade democrática entra em colapso, permitindo que o Real traumático da impossibilidade de convivência emerja sem mediações fantasmáticas adequadas.

Talvez seja necessário compreender que a pequena cidade de Eddington constitui-se como microcosmo onde o que Lacan denomina "discurso do mestre" - estrutura que organiza hierarquias sociais através da imposição de significantes-mestres que fixam identidades e posições - entra em crise terminal, criando condições onde diferentes grupos sociais competem violentamente pela hegemonia simbólica sem conseguir estabelecer novos pactos que permitam coexistência pacífica. Eu vejo que essa dinâmica revela algo fundamental sobre nossa época: a pós-verdade não representa apenas disputa epistemológica sobre critérios de conhecimento, mas sintoma de decomposição dos mecanismos discursivos que tradicionalmente mediavam conflitos sociais através de instituições simbólicas compartilhadas.

Joaquin Phoenix constrói Joe Cross como encarnação contemporânea do que Lacan identifica como posição discursiva do mestre, mas num momento histórico onde os significantes-mestres tradicionais - lei, ordem, tradição, autoridade masculina - perderam eficácia simbólica para organizar consensualmente o laço social. Vejo que Cross opera através daquilo que podemos denominar "discurso do mestre perverso": ao invés de sustentar a castração simbólica que permite alternância democrática no poder, ele tenta ocupar posição de exceção que o autorizaria a determinar unilateralmente os critérios de legitimidade política e social.

Me parece que a caracterização de Phoenix revela como o xerife representa modalidade específica de autoritarismo contemporâneo que Lacan antecipou: quando o discurso do mestre tradicional entra em crise, emergem figuras que prometem restaurar ordem através da eliminação da própria dialética democrática, posicionando-se como encarnações diretas da vontade popular que não precisariam submeter-se aos constrangimentos institucionais que limitam o exercício do poder. Talvez Cross funcione como sintoma do que acontece quando lideranças tentam ocupar simultaneamente posições de agente e verdade no discurso do mestre, criando estruturas psicóticas que inviabilizam reconhecimento da alteridade como dimensão constitutiva do político.

Sou levado a acreditar que a progressão narrativa do personagem demonstra como essa modalidade perversa do discurso do mestre produz necessariamente escalada paranoica: quando Cross interpreta medidas sanitárias como conspiração pessoal contra sua autoridade, ele revela a estrutura fantasmática que sustenta autoritários contemporâneos - necessidade de transformar diferenças administrativas em perseguições coordenadas que justifiquem eliminação dos mecanismos democráticos de contestação. Eu observo que Aster filma isso mostrando como Cross gradualmente perde capacidade de distinguir entre questionamentos institucionais legítimos e ataques pessoais, revelando que autoritários operam através da forclusão da dimensão simbólica que permitiria metabolizar conflitos sem recorrer à violência.

Pedro Pascal compõe Ted Garcia como representante do que Lacan denomina discurso universitário, posição caracterizada pela tentativa de governar através de conhecimento técnico-científico que pretende neutralizar dimensões conflituais da política através de soluções baseadas em evidências objetivas. Talvez Garcia encarne o tipo do gestor público contemporâneo que acredita poder administrar sociedades complexas através da aplicação de protocolos especializados, ignorando que toda implementação de políticas públicas exige mediação simbólica que conecte conhecimento técnico com significações imaginárias que permitam adesão popular.

Me parece que a caracterização de Pascal revela a impotência estrutural do discurso universitário quando confrontado com resistências que não operam através de critérios racionais, mas através de investimentos libidinais em significantes-mestres que organizam identidades coletivas. Quando Garcia tenta implementar medidas sanitárias baseadas em recomendações epidemiológicas, ele encontra resistências que não podem ser vencidas através de argumentação técnica, porque essas resistências funcionam como sintomas de ansiedades mais profundas sobre autonomia, controle e pertencimento comunitário que excedem qualquer racionalidade administrativa.

Sou levado a acreditar que o filme demonstra como o discurso universitário, apesar de sua legitimidade epistemológica, produz efeitos paradoxais quando aplicado diretamente ao campo político: ao apresentar-se como conhecimento neutro que transcende diferenças ideológicas, ele inadvertidamente nega a dimensão propriamente política da vida coletiva, gerando reações de resistência que se manifestam através de anti-intelectualismo e teorias conspiratórias que funcionam como retorno sintomático daquilo que o cientificismo pretende excluir. Eu vejo que Garcia representa a tragédia contemporânea de técnicos bem-intencionados que possuem competência para diagnosticar problemas sociais, mas carecem de recursos simbólicos para mobilizar adesão popular necessária à implementação de suas soluções.


Embora não haja personagem individual que encarne completamente o discurso da histérica, me parece que Aster distribui essa posição discursiva através de vários personagens secundários que funcionam como sintoma vivo das contradições que atravessam a comunidade de Eddington. Talvez os moradores que oscilam constantemente entre apoio e oposição tanto a Cross quanto a Garcia representem modalidade histérica de questionamento que revela a inconsistência dos significantes-mestres que pretensamente organizariam a vida coletiva.

Vejo que esses personagens operam através daquilo que Lacan identifica como função sintomática da histérica: ao questionar sistematicamente a autoridade tanto do xerife quanto do prefeito, eles expõem que nenhuma das posições disponíveis consegue oferecer respostas satisfatórias aos impasses contemporâneos, forçando explicitação das aporias que estruturam nossa época política. Sou levado a acreditar que essa dimensão histérica do filme revela algo fundamental: a pós-verdade constitui sintoma coletivo que expressa impossibilidade de sustentar tanto modalidades tradicionais de autoridade (discurso do mestre) quanto modalidades tecnocráticas de governança (discurso universitário).

Talvez a contribuição mais significativa dessa dimensão histérica seja demonstrar que a polarização extrema que caracteriza nossa época não representa simplesmente disputa entre duas posições ideológicas antagônicas, mas exprime mal-estar mais profundo relacionado à decomposição dos recursos simbólicos que tradicionalmente permitiam processar conflitos sociais através de mediações institucionais. Eu observo que os personagens que oscilam entre diferentes posições revelam que nenhuma das alternativas disponíveis consegue oferecer identificações estáveis que permitam sustentação de projetos coletivos duradouros.

Talvez o elemento mais significativo da análise lacaniana de "Eddington" seja a virtual ausência de personagens que operem através do discurso do analista ($a \rightarrow \$$ ), posição que permitiria sustentação produtiva da divisão subjetiva e reconhecimento da castração como condição estrutural que viabiliza laço social democrático. Me parece que essa ausência constitui diagnóstico preciso de nossa época: vivemos momento histórico onde as modalidades discursivas que permitiriam elaboração criativa de impasses coletivos foram eclipsadas por posições que prometem eliminar a própria conflituosidade que caracteriza a condição política.

Sou levado a acreditar que o filme sugere que a superação dos impasses da pós-verdade exigiria emergência de posições discursivas que pudessem sustentar produtivamente a impossibilidade de sínteses definitivas, reconhecendo que toda organização social comporta dimensões irredutíveis de antagonismo que precisam ser constantemente renegociadas através de processos democráticos ao invés de serem eliminadas através de soluções autoritárias ou tecnocráticas. Eu vejo que essa perspectiva analítica permitiria compreender que diferenças políticas não representam patologias a serem curadas, mas condições estruturais que exigem elaboração criativa constante.

Vejo que a ausência do discurso do analista no filme revela que nossa época carece de modalidades de liderança que pudessem sustentar a tensão produtiva entre diferentes perspectivas sem prometer resoluções imaginárias que eliminariam a própria necessidade de debate democrático. Talvez isso explique por que tanto Cross quanto Garcia fracassam: ambos operam através de fantasias de completude que os impedem de reconhecer a legitimidade estrutural de posições divergentes, criando dinâmicas onde diferenças administrativas escalem necessariamente para confrontos existenciais.

"Eddington" oferece radiografia clínica das modalidades discursivas que caracterizam a pós-verdade como sintoma de nossa incapacidade coletiva de sustentar aquilo que Lacan denomina Real do político: reconhecimento de que toda organização social comporta dimensões irredutíveis de impossibilidade que não podem ser eliminadas através de soluções definitivas, mas precisam ser constantemente elaboradas através de processos que reconheçam a alteridade como dimensão constitutiva ao invés de ameaça a ser neutralizada.

Me parece que o filme demonstra que a superação dos impasses contemporâneos exigiria não o retorno nostálgico a modalidades tradicionais de autoridade nem a implementação tecnocrática de soluções especializada, mas a invenção de formas inéditas de laço social que pudessem sustentar criativamente tensões que caracterizam sociedades complexas, reconhecendo que a própria conflituosidade constitui recurso democrático ao invés de patologia a ser eliminada. Talvez essa seja a lição psicanalítica mais importante que podemos extrair da catástrofe de Eddington: nossa época necessita urgentemente de modalidades discursivas que permitam habitar produtivamente nossas divisões ao invés de prometê-las resolver através de sínteses imaginárias que reproduzem ciclicamente as mesmas aporias sob formas cada vez mais destrutivas.

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