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Mostrando postagens de junho, 2025

A Sensibilidade... "Na margem do rio Piedra eu sentei e chorei..." (crônica)

 "Na margem do rio Piedra eu sentei e chorei. Diz a lenda que tudo o que cai nas águas deste rio – folhas, insetos, penas de pássaros – se transforma nas pedras do fundo. Ah, se eu pudesse arrancar meu coração do peito e atirá-lo nas águas correntes, então não haveria dor, nem saudade, nem lembranças." Paulo Coelho abre seu romance invocando uma lenda que tem fonte nos mitos antigos sobre transformação através da dor. O rio Piedra, palavra que evoca tanto pedra quanto piedade, torna-se metáfora de um processo de análise onde o sofrimento se cristaliza em sabedoria, onde lágrimas se petrificam em memória eterna com lições e potência.  Mas há algo profundamente psicanalítico nesta imagem inaugural. O desejo de Pilar de "arrancar o coração do peito" vai se encontrar com o que Freud chamaria de pulsão de morte. E ela não é propriamente, como costumam ver, o desejo de morrer, mas de retornar a um estado anterior à tensão, à excitação, ao conflito. E pode ser, como neste ...

Nietzsche e a Psicanálise: convergências, subversões e amplificações conceituais

  Introdução A relação entre o pensamento nietzschiano e a psicanálise constitui um dos encontros mais profícuos e complexos da história das ideias. Friedrich Nietzsche, que proclamou ser "o primeiro psicólogo da Europa" (Nietzsche, 1888/2008, p. 45), antecipou muitas das descobertas freudianas sobre o inconsciente, a sexualidade e os mecanismos de defesa do psiquismo. Freud, por sua vez, reconheceu explicitamente esta dívida, afirmando que Nietzsche possuía "insights sobre si mesmo que não foram ultrapassados por ninguém" (Freud, 1925/2011, p. 34). Contudo, a apropriação psicanalítica do pensamento nietzschiano não se limitou a uma confirmação de intuições filosóficas; ela operou transformações conceituais que simultaneamente honraram e subverteram o legado nietzschiano. Este ensaio explora as convergências e divergências entre ambos os pensadores, demonstrando como a psicanálise construiu um edifício teórico que, embora devedor da filosofia nietzschiana, criou n...

Saussure e a psicanálise: contribuições, subversões e amplificações do paradigma linguístico

  Introdução A linguística estrutural de Ferdinand de Saussure ofereceu à psicanálise um arsenal teórico fundamental que permitiu repensar o inconsciente não como mero repositório de conteúdos reprimidos, mas como estrutura linguística. Contudo, a apropriação psicanalítica do pensamento saussuriano não se limitou a uma aplicação direta de seus conceitos; antes, operou uma subversão criativa que transformou a própria compreensão da linguagem e do sujeito. Como observa Lacan (1957/1998, p. 498), "o inconsciente é estruturado como uma linguagem", proposição que simultaneamente honra e transfigura o legado saussuriano. Este ensaio explora como a psicanálise, especialmente em sua vertente lacaniana, absorveu, subverteu e amplificou os fundamentos da linguística estrutural, criando uma nova compreensão do psiquismo humano. As Contribuições Saussurianas: A Linguagem como Sistema O Signo e sua Estrutura Diferencial Saussure (1916/2006, p. 80) estabeleceu que "a língua é um s...

O Inconsciente e suas marcas: da repetição à reinvenção narrativa

As marcas primordiais inscritas no inconsciente constituem um dos temas mais instigantes da psicanálise desde sua concepção freudiana. Este ensaio propõe uma reflexão sobre como as inscrições primárias no aparelho psíquico determinam padrões de repetição que, paradoxalmente, podem servir não como prisões existenciais, mas como plataformas para novas possibilidades de ser. Conforme afirmou Freud (1920/2010, p. 179), "o que permanece incompreendido retorna; como uma alma penada, não descansa até encontrar resolução e libertação". A compulsão à repetição, longe de ser apenas um mecanismo patológico, revela-se como condição inerente ao psiquismo humano, convidando-nos a repensar o próprio objetivo da psicanálise não como cura definitiva, mas como transformação possível da relação do sujeito com suas determinações inconscientes. As Inscrições Primordiais no Aparelho Psíquico Freudiano Para Freud, o aparelho psíquico conserva marcas permanentes das primeiras experiências, especialm...

A Serpente Engolida: o desafio nietzschiano da (trans)formação

A metáfora da serpente em "Assim Falava Zaratustra" não é mero adorno literário, mas uma provocação visceral que desafia nossos mais profundos pressupostos. Encontramos esta imagem perturbadora na seção "Da Visão e do Enigma", onde Nietzsche nos apresenta: > "Vi um jovem pastor contorcendo-se, sufocando, estremecendo, com o rosto desfigurado, de cuja boca pendia uma pesada serpente negra." Não é chocante como esta imagem nos captura imediatamente pelo horror? A serpente — negra, pesada, invasiva — penetra no corpo enquanto o pastor dormia, simbolizando nossa vulnerabilidade fundamental: > "Porventura, havia eu visto jamais tanto asco e pálido horror num semblante? Ele devia estar dormindo quando a serpente lhe entrou na garganta — onde se agarrou mordendo." Observem como Zaratustra tenta, em vão, resolver o problema pela via convencional: > "Minha mão puxou a serpente, puxou e tornou a puxar: — em vão! Não consegui arrancá-la da gar...